4.22.2011

Pinças & Biscotti

Já há algum tempo que espreito. 
Aqui e ali, quem faz o quê, como, e quantas vezes ao dia…Muito sorrateiramente deixava uns comentários quando não me conseguia conter, borrifados por aí, mas sempre feitos a medo.
E o medo não era do julgamento, da exigência da personificação (e render o anonimato), de ver as vossos dedos indicarem caminho para o meu nariz, do inevitável backlash de escrutínio (telhas de vidro, pois claro…). Era de me absorver nas vossas historias, de me aperceber, com vergonha, que andavam activas na face da minha (crescente, acrescente-se…) passividade. Activas? Sim. Contra a FOME.

Mas não é aquela fome, a fome desumana, a fome negra que invoca ajuda humanitária, que incha barrigas de órfãos subsarianos…não é essa contra a que lutamos aqui (aqui, note-se bem). A outra fome, a irmã burguesa desta, a fome dourada, produto da era da abundância, é a que me faz pinchar com a aurora para o pequeno-almoço, mesmo quando dormi apenas um par de horas; faz-me morder as beiras dos lábios gretados enquanto apresso a lavagem da loiça, em antecipação à sobremesa; obriga-me a ignorar a obvia rejeição do meu corpo a ainda mais comida - ler azia, inchaço, mau-estar - e empurrar tudo o que o olho vê e a mão quer alcançar (ou a mente lembra que está num qualquer armário) no meu poço gutural, de fundo aparentemente inexistente. Essa fome, que não o é, e que não podia ser mais humana, é a GULA.
Crianças esquisitas nunca tinham lugar na nossa mesa e, ainda hoje, estremeço ao ouvir um

"não gosto de _______" *
                                                                                          * (completar com qualquer legume e seguir de muitos pontos de exclamação -

                                                                           - brócolos, ervilhas e cogumelos parecem dar o dobro dos pontos…)

Cuspir recebia bofetada de recompensa e deixar algo no prato… bem - não acontecia. Criança-modelo, eu comia (ler como) tudo e - ainda mais relevante - de tudo. A comida era, a mim, mais que apresentada - era presenteada; e nem precisava de papel colorido. De tempo de convivência familiar, passou a recompensa na pausa em horas de estudo ("acabo isto e logo afundo no sofá com uma valente pratada de"); mais tarde passou a pretexto de viagem ("bom era irmos ate lá acima, comer uma dose de")e habilidade garbosa de se ter ("esta noite todos vão elogiar e exigir segunda dose de"); e até artificio de procrastinação ("precisava de trabalhar mas vou antes fazer uma receita de"). Comer é prioridade sobre tudo e todos, a qualquer hora e sobre qualquer forma - imagino a próxima dose enquanto a como e enquanto ainda não a comi.

    = Tive de fazer uma pausa para procurar a minha pinça (é só a minha que parece esconder-se nos cantos mais recônditos das gavetas?). Preciso de retirar umas migalhas de entre as teclas do meu teclado porque o meu L não queria ceder ao meu dedo sapudo. Migalhas? Ah…pois são efectivamente migalhas - de quê? Pois, ora bem…de biscoito. Biscotto para ser precisa. Biscotti que acabei de fazer, em vez de trabalhar. Biscotti que não podia esperar por amanha - ou pelo fim deste post - para ser sacrificado =

Como, então, resistir às aparências sedutoras, aromas debilitantes e sabores imaginados?
Como evitar que este tsunami sensorial - incontáveis vezes mais poderoso que eu - me varra todos os dias?
        (Como dizer 3 vezes "como" sem confundir adverbio com verbo?)
    Difícil. (escrevo enquanto encontro, ainda, migalhas de algum biscotto)

É segurar um touro pelos duros apêndices, olhando-o nos olhos - e fazê-lo diariamente. E eu, que sou fraquinha, disponho de poucos recursos para o fazer.

Mas estou aqui recrutando mais um - pode ser que seja o decisivo, como tem sido para vocês.

3 comments:

Anonymous said...

Bom texto.
Revi-me nas suas palavras :(

Joana said...

Bonitas palavras. E se há coisa que me irrita hoje em dia é ouvir pessoas a dizer "não gosto de...." E ainda não descobri o que é pior, as crianças ou adultos.

Beijinhos

Taís e Paula said...

Adorei o post! A maneira como escreves é genial!
Beijos da Taís.